1Amanhã já vai fazer um mês que voltei "de las vacaciones"
cariocas. Esta semana me dei conta, mais uma vez, que
o frio sempre me rouba metade das energias que consigo
acumular nos calientes trópicos. Quando cheguei era
pura adrenalina, luminosa y veraniega. Aos poucos,
minha bateria foi ficando fraca e tive que reduzir o ritmo.
A "maledetta" gripe foi apenas um sintoma da debilidade
provocada pelo inverno. O sono indomável é o outro lado
da mesma moeda.
Tem gente que costuma me dizer lá no Brasil que adora
o frio, que reclamo de metida a besta que sou. Sempre
dou o seguinte troco: uma coisa é passar um frio gostoso
numa viagem turística de 15 dias, preferivelmente bem
acompanhada por um bom cobertor de orelhas. Outra
coisa é autre chose: levantar todos os dias às sete da
madrugada para trabalhar e encarar o "friozinho gostoso"
da rua durante dois meses é muito diferente. Sem falar
no tira e bota casaco, luvas, gorro, etc. Enfim, este
negócio de frio é para gente muito mais metida a besta
que eu, criatura solar e tropical até debaixo d´água.
Uma amiga espanhola me disse que nos trópicos
envelhecemos mais rápido, que o clima frio nos conserva
mais jovens. Sei não, acho que prefiro virar maracujá
maduro mais rápido se for para viver perto do calorzinho
bom de uma praia tropical. Ainda bem que o inverno
madrilenho é curto: já já vai chegar uma linda primavera!
2Agora entendo porque a galera por aqui tem um ritmo
mais lento para trabalhar. Estou aprendendo a "desayunar"
no meio da manhã para recuperar o ânimo e também já
sou capaz de curtir uma ou outra "siesta" básica depois
do almoço, quando é possível. Dois hábitos que nunca
fizeram parte do meu repertório cotidiano.
3 Aliás, o "desayuno" é todo um clássico espanhol.
Geralmente as pessoas saem de casa sem comer nada
(para poder dormir mais, imagino eu) e depois de uma ou
duas horas de trabalho param o que estão fazendo para
"desayunar". Detalhe precioso: isso se faz na rua, ou
seja, fora do local de trabalho, em qualquer um dos cafés
que existem em profusão pela cidade, e pode durar de
30 a 40 minutos, às vezes, até uma hora. É um intervalo
permitido a qualquer trabalhador. Quem entra às 8 horas
"desayuna" às 10, quem entra às 9 horas, geralmente
pára às 11. De qualquer forma, pelo que percebi, isso
pode ficar a seu critério. Se você prefere "desayunar"
bem longe dos colegas de trabalho, vale sair antes ou
depois deles.
4Quando digo que no Brasil trabalhamos muito mais, as
pessoas aqui não acreditam. É verdade que nosso
desperdício de tempo é maior. Aqui reina o estilo
modernista: menos é mais. Até mesmo com respeito
à quantidade de trabalhadores. No Brasil, de um modo
geral, há um excesso de funcionários em todos os
lugares. Em qualquer loja, por exemplo, há um gerente,
um subgerente, vendedores, segurança, office-boy, sem
falar no dono que circula de um lado para o outro,
sem conseguir resolver muita coisa. Às vezes, há
mais gente para atender que clientes para comprar.
Aqui a banda toca de outra maneira. Geralmente uma só
pessoa é capaz de fazer o que 4 pessoas fariam no Brasil.
Há serviços que operam com uma margem mínima de
funcionários e isso pode incomodar muito se você tem
pressa. Temos uma cultura de gostar de servir e ser
servido que seria impensável num país como a Espanha.
As heranças colonias e escravocratas ainda falam
alto em muitos setores da nossa sociedade, mas esta
é uma outra história, muito mais complexa.
5Qual é a melhor forma de trabalhar? Sinceramente, cada
cultura tem lados positivos e negativos. É preciso saber
curtir cada um deles, respeitando-se as idiossincracias
locais e valorizando-se o que para nós é sinônimo de
qualidade, sem perder o espírito crítico e curioso, por
supuesto. Embora muita gente pense o contrário, nem
tudo acima do Equador é divino e maravilhoso. Como
disse o Gil, "o melhor lugar do mundo é aqui e agora",
com todas as conseqüências inerentes a qualquer
escolha que podemos fazer na vida. Adotando-se este
sábio critério, as comparações que acabei de fazer
sobram.
6Last, but not least: isso é apenas uma opinião derivada
da eterna mania de observar e sair atirando para todos
os lados. Nada além disso. Amanhã pode ser que a
metamorfose ambulante já tenha mudado de opinião.