São Paulo, cidade vertiginosa, caótica, mutante maravilha. Ruas, carros, gente, lojas, edifícios sem fim na cidade sem fim, sem limites. Bairros que morrem. Ruínas em construção ainda como viu Lévi-Strauss. Tudo é novo, mas também já é ruína.
Não dá tempo pra nada. Tento reconhecer ruas, bairros, edifícios, cantinhos... Em dois anos a cidade é outra, mas ainda é a mesma.
Fui ao cinema. Vi "Cinema, aspirinas e urubus" (Brasil, 2005). Gostei muito, mas não dá posso refletir sobre ele com palavras porque falta tempo. Me tocou fundo. É só.
Hoje estive na FAU-USP. Lembrei de outros tempos. Quando morei por aqui no final dos anos 80. Naquela época andava meio perdida. Tudo se amplificava na cidade grande, anônima e fria, principalmente a dor e a solidão.
Hoje fui à Bienal. Foi uma visita rápida, amanhã volto com mais calma. É um milagre que um evento desta envergadura seja gratuito, aberto, sem restrições aos visitantes. Há muita segurança, mas não nos revistam com suspeitas de que levamos bombas nas bolsas e mochilas. Está bem organizada, embora se note que a arte que se mostra anda redundante. Há uma certa precariedade, um excesso de coisas amontoadas nas obras apresentadas. Juntar coisas. Fazer salinhas escuras que exigem atenção exclusiva. Gosto de chamá-las de salas-útero. Muitos filminhos e fotos e vídeos. Imagens por todos os lados. A pintura morreu? Para os curadores da Bienal parece que sim. Esculturas ainda se aceitam, mas são todas como imensas colagens-construções de coisas ordenadas ou apresentadas de forma caótica. Falo precipitadamente. É sempre bom ir à Bienal, ver o que se mostra, refletir sobre as escolhas daqueles que organizam o evento. Sim, é sempre bom lembrar que há pessoas que escolhem o que será apresentado. É arte de artistas que estas pessoas elegeram como representativas do que eles acreditam ser arte. Mas existem outros olhares e outros artistas, muitos outros porque o mundo da arte é imenso...
Tirei muitas fotos. Amanhã vai ser outro dia.
Ainda não tive tempo de me perder pela cidade. Há várias coisas que quero rever ou conhecer. Gosto de andar, mas aqui reinam os veículos motorizados. Aliás, o carro é o rei em todos os lugares que estive, mas São Paulo é especialmente motorizada. Talvez existam bairros em que as pessoas caminhem pelas ruas, mas não circulei por eles até agora. Todos os carros têm vidros negros, como se fossem carros que se movem sozinhos, sem motoristas. É o medo, me contam. Vi o mesmo no Rio e em Vitória. O medo agora se veste de negro. O traje de guerra das grades que vestem janelas, portarias e entradas continua firme e forte: segurança e medo são palavras comuns.
Desigualdade, separação, exibicionismo, endeusamento da riqueza. Todos querem luxo, exibir luxo, seja ele discreto ou ostensivo. Todos dizem EUROPA com ar de falsa inferioridade. Há uma necessidade de acreditar que LÁ é melhor, que existe algo mais bonito, um lugar com o qual se possa sonhar. A perfeição. Aqui reina a diferença abismal entre ricos e pobres. A classe média no meio parece recheio de sanduíche. A vida é cara, vergonhosamente cara. Em muitos aspectos, mais cara que algumas cidades caras da Espanha. Mas todos dizem que lá a moeda é forte e que o dinherio de lá compra mais. Uma banana a mais, talvez. Aqui a moeda fraca multiplica os preços de tudo de forma assustadora e se fortalece pela multiplicação. Me explicam o que já sei: a carga tributária é alta, mas isso não explica que determinados produtos sejam excessivamente caros.
Me falta tempo para escrever, para gravar certas frases que escuto, certos detalhes que vejo... Sim, voltar provoca reações estranhas. Uma parte quer ficar, outra já não encontra um lugar no qual a palavra lar possa ser escrita. Ainda me sinto mais em casa nas ruas do Rio, mas me pergunto até quando...
Tudo parece estranhamente familiar e distinto.