Esta palavra não existia no meu vocabulário até hoje de manhã. "Jefe II", o sábio, estava escrevendo sobre isso e fiquei curiosa. Sempre fui amante dos hypomnemata, mesmo antes de saber o que eram. Dei uma procurada no pai dos burros modernos,
el gran google, e descobri muitas coisas sobre o tema.
Nos tempos de Platão, os hypomnemata eram cadernos de anotações de uso pessoal. Não eram necessariamente íntimos. Eram comuns sobretudo nas classes cultas, como uma espécie de "anotadores" de vida, como memórias individuais. Eram usados para guardar reflexões e idéias, preparar discursos, copiar fragmentos de leituras, frases e histórias ouvidas, relatos sobre coisas vividas ou vistas, etc. Muitas vezes convertiam-se em rascunhos de textos que posteriormente seriam desenvolvidos. Também eram escrituras em andamento, um lugar que servia tanto para guardar memórias como anotações sobre coisas que se planejavam fazer no futuro. Este tipo de escrita não era movida por uma intenção reveladora, de originalidade ou inovação. Ao contrário, eram recompilações que reuniam diferentes reflexões sobre experiências diretas, estruturadas em relação ao vivido. Os hypomnemata foram importantes na Antiguidade porque contribuíram para a naturalização da escritura. Segundo Foucault, o surgimento e a proliferação dos hypomnemata poderia ser comparado à popularização dos computadores pessoais do nosso tempo. Muitos pensadores consideram que os hypomnemata, guardando-se todas as proporções e mediações históricas devidas, provocaram um fenômeno semelhante aos blogs e aos sites pessoais modernos. Li um artigo de Nicolás Nóbile chamado "Escritura electrónica y nuevas formas de subjetividad" que toca neste tema:
Era un elemento que reforzaba la relación del usuario consigo mismo, ya que mediante estas libretas se efectuaba parte de la tarea de administración y gobierno de la propia persona. (...) una recolección de fragmentos de textos ya sean propios, oídos o enseñanzas que pudieran luego ser utilizados para reforzar y mejorar una relación de pleno autodominio de sí. Esta cultura ética pre-cristiana, que se continuó hasta las doctrinas estoicas romanas, promovía una visión estética de autoconstrucción de la propia persona en los términos de una obra de arte, su puesta en práctica supuso el uso intensivo de la escritura. Tal fue el caso de los escritos del emperador Marco Aurelio, Plinio o la correspondencia entre Séneca y Lucilo cuyos intercambios epistolares fueron el vehículo de una inquietud compartida acerca de las agitaciones y las perturbaciones que les afectaron. En todos ellos, el texto jugaba no como el testimonio de una vida virtuosa, sino como un recurso operativo que mediaría en el desarrollo de una adecuada relación consigo mismos.Muito antes de ter computador ou blog, sempre gostei de escrever e fazer anotações sobre a vida. Nunca tive diários, no sentido tradicional, preferia usar cadernos para escrever, desenhar, estudar, fazer contas, anotar o nome de uma música ou de um filme, colar um recorte de jornal, etc. Usava cadernos pautados ou adaptava blocos de desenho, daqueles que vinham com folhas de papel de seda. Também gostava de cadernetas, bloquinhos e daqueles cadernos grampeados ao meio, entre outros tipos. Nem preciso dizer que adorava papelarias. Minha paixão pelos cadernos me levou primeiro a personalizá-los, mudando as capas ou desenhando sobre elas. Depois buscava coisas diferentes nas papelarias, até que um dia tive a idéia de fazer meus próprios cadernos. Comecei a fabricá-los da maneira que mais gostava: sem pautas e com capas personalizadas. Os primeiros eram precários, mas logo fui me aperfeiçoando e fazia cadernos cada vez mais bonitos.
Nos anos 80 e parte dos 90 produzi muitos cadernos de diversos tamanhos para vender. Minha especialidade era pintar papéis coloridos que logo usava para forrar as capas dos cadernos. Eram lindos. Além de vendê-los ou presenteá-los para amigos e familiares, também os vendia em muitas papelarias bacanas do Rio, São Paulo e Vitória. Foi uma fase muito legal, mas que me exigia trabalhar muito, porque era responsável por tudo: pintava as capas, cortava as folhas para o miolo, cuidava de todos os detalhes, além de continuar estudando e trabalhando. Tive vários encadernadores que preparavam as capas, mas depois tinha que colocar todas as espirais em cada caderno.
Não sei porque deixei de fazê-los. Creio que chegou um momento que deveria optar entre seguir fazendo as coisas domesticamente ou partir para a tal pequena empresa. Não tenho vocação para os negócios e vendê-los era a parte mais chata. Aos poucos fui deixando de fazê-los. Às vezes, alguém me pedia algo especial (um álbum, uma pasta, etc.) e fazia por encomenda, mas hoje em dia nem isso. O gosto pelos cadernos continua, mas confesso que diminuiu muito por dois motivos. Primeiro porque cada vez tenho mais fobia à acumulação de papel. Mudar de país me fez valorizar o desprendimento. Não tenho espaço mental e físico para guardar coisas infinitamente. Com o que tenho de livros, cds, revistas, dvds, etc. já me basta. Por outro lado, os computadores são implacáveis. Desde 93 uso estas porcarias e cada vez escrevo menos em papel.
Agora sei que meus cadernos eram hypomnemata. Tinham este caráter de anotar coisas da vida. Hoje me acostumei a escrever olhando para uma tela. O computador me permite revisar com facilidade os textos e guardá-los de forma mais eficiente. O único porém é a mudança de sistemas operativos que volta e meia acontece, mas até isso se resolve aprendendo guardar tudo com cuidado.
Com o blog meu gosto pela escrita aumentou, embora tenha demorado a expor publicamente meus textos. Metade do que escrevo ainda fica guardada em vários arquivos do cotidiano. São textos que esperam uma oportunidade de se converter em outra coisa. Por hora são apenas hypomnemata.
* Post publicado em 31 de março de 2006 aqui; sim, o tempo voa...