31.3.10

livros de março

 










6 Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum

Também li do mesmo autor:
Dois irmãos













5 Dois irmãos, Milton Hatoum














4 50 crônicas escolhidas,  Ruben Braga

Do Rubem Braga devo ter lido muitas outras crônicas nos jornais.

milton & memórias





"Clube da Esquina", disco "Milton", 1970.

Gosto de ouvir na MPB FM um programa chamado "Clássicos MPB". Agora a diferença do "parafuso" horário me ajuda, porque ele começa às 6 horas da manhã, hora do Brasil (11 horas em Madrid). Recupero músicas esquecidas e me dou conta que guardo na memória um imenso repertório. Lembro-me das letras e melodias inteiras, com pausas e refrões. Sempre pergunto-me como tudo isso ficou gravado na memória?

Quantas vezes ouvi este e outros discos maravilhosos do Milton? Aqui em Madrid, no Rio, em Vila Velha. Ao voltar da praia, ao chegar em casa depois de um dia cheio, porque estava triste, porque a alegria me acompanhava, enquanto cozinhava, enquanto pintava misturando as cores, enquanto dirigia, porque não conseguia dormir, naquele show em que repetíamos gritando as canções, chorando baixinho, acompanhada de alguém que tocava violão, porque estava cheia de amor, ao jantar com os amigos, ao voltar da loja com o disco fresquinho na mão... Cada canção tem um fio de lembranças, revela minha história, minha trajetória por este mundo.

Memória é construção, outra vez a frase que pode explicar tudo. Memória é o que nos ajuda a perceber a continuidade da vida. Sem memória, perdemos a consciência do passado, o elo com aquilo que já fomos, uma vez que o correr da vida sempre nos transforma. A memória ilumina o que somos por meio do que já não somos, imprimindo novos significados ao que já vivemos. (Marly Rodrigues)

Quantas horas passei escutando música? Rádio, fitas cassetes, discos, cds, televisão, filmes...

Penso na construção, nos tijolos empilhados um sobre o outro, recheados de vivências, de pequenas passagens que poderiam ser esquecidas para sempre não fosse àquela música, àquela cor, aquele sabor... Sabores, cores, paisagens, sensações, sons, músicas. Construímos ao longo de tantos anos vividos um repertório que sempre nos trazem lembranças, cenas fugidias, fragmentos de vida... Edifícios, casas, ruas, cidades, países que guardo em pedaços de canções, ma memória.



o mesmo filme

Peço desculpa ao leitores mais antigos, mas precisava repetir os dois posts abaixo para poder, talvez, dar um passo adiante.

Volta e meia fico a pensar sobre a memória, sobre o desejo de reconstruir o passado, sobre as histórias incompletas que guardo em arquivos fragmentados dentro da caixola, em sistemas fora de uso. Talvez seja a hora de começar a juntar os pedaços, completá-los com inventos e suposições, abrir mão da pretensa utilidade (ou necessidade) da verdade. Usar a imaginação. Mentir. Mentir como uma criança que inventa amigos imaginários e situações improváveis. Sonhar. Sonhos com continuidades que preencham os vazios do esquecimento. Sentar e começar a escrever todos os dias, como reza o método de 10 entre 10 escritores. Todos os dias. Dia sim e outro também.


repeteco [2] | à tarde*

Às vezes me lembro bem de muitas coisas que vivi. Como qualquer pessoa, posso me lembrar, mas a massa cinzenta que guarda histórias na minha cabeça é imprevisível. Nunca se sabe quando algo se planta para ficar. De tudo que vi-vivi-ouvi em todos estes anos não creio que sobrem muitas histórias completas, com princípio, meio e fim.

"Perseguida" [assim passei a lhe chamar, mas isso é outra história] sempre repetia o mantra: memória é construção, memória é construção... Os homens pensadores expressaram muito bem a idéia, mas todos nós, pobres mortais, já sabíamos que as lembranças se articulam, se misturam umas com as outras, até virar um caldo: a memória. Ao final, o que conseguimos tem um sabor parecido ao que foi vivido, mas já é outra coisa, porque a memória é construção.

1. Maurice Halbwachs
2. Lucien Febvre
3. Pierre Nora

1. Contra a intuição de um passado objetivo que se impõe ao presente, é conveniente destacar a dimensão ficcional da memória.

2. "L'homme ne se souvient pas du passé, il le reconstruit toujours. II part du présent et c'est à travers lui toujours qu'il connaît, qu'il interprète le passé".

3. [A memória] tende a reconstruir um passado ideal ou diabolizado. Ela pode comprimir ou dilatar o tempo, e ignorar toda forma de cronologia, ao menos a racional. [...] A memória possui a característica de preservar uma continuidade e de permitir que o indivíduo ou grupo absorvam as rupturas, que as integrem em uma permanência.

É um tema velho, amplo e complexo, que de vez em quando vem à memória, em tantas leituras e indagações. Já foi muitas vezes repetido, "reconstruído", por diversos historiadores-pensadores.

Volto à vaca fria. Recordo explicações que li ou ouvi como fragmentos de um vaso quebrado. Quase sempre sou incapaz de juntar todas as partes para dar uma idéia das cores ou da beleza do que agora está despedaçado. Vejo, penso, lembro. Algo que vi-li-ouvi, mas já não posso repeti-lo com todos os detalhes, que provavelmente também foram requentados por quem me contou-descreveu.

Tenho um desejo irrealizado. Gostaria de saber descrever com detalhes histórias cheias de curvas e voltas. Não sei fazer isso. Tenho um incontrolável excesso de pragmatismo. Vou direto ao assunto. Uma amiga me disse uma vez que deveria escrever um "manual prático para sobrevivência nas cidades". Talvez tenha razão. Melhor seria desistir das histórias. Tem gente que mente. Inventa partes inteiras ou se apropria de outras. Ao final a história fica até mais divertida com todas as novidades acrescentadas. É o sabor que vem do toque pessoal do narrador.

Não sei contar histórias. Apenas tento. Vou enchendo os vazios da memória com palavras que aparecem na mente. À vezes a coisa se complica. Gaguejo, repito palavras, dou voltas ao mesmo ponto morto. Tenho os tijolos, mas falta cimento para fazer a tal memória virar construção-relato. Sigo tentando contar o caso. Repito a mesma frase com diferentes entonações. Não há nada mais que se possa dizer. Fico com cara de tacho. Será a cara de quem fica plano, sem expressão? Devia procurar no livro da Casa da Mãe Joana ou sugerir que ele escreva sobre isso (se já não escreveu...). Gosto de descobrir a origem de certas expressões. Tenho este livro sempre à mão porque em casa me pedem explicações quando solto uma pérola distraidamente. Recebo de volta um olhar de surpresa como pergunta: cara de quê? Como assim? De tacho, sim senhor. Não me lembro de tudo e a história fica capenga. Falta um pouco de molho, mas não desisto. Um dia contarei uma história-memória construída do meu jeito.


* Post publicado em 22 de março de 2006, aqui. É do tempo em que as ideias tinham acento.


repeteco [1] | hypomnemata*

Esta palavra não existia no meu vocabulário até hoje de manhã. "Jefe II", o sábio, estava escrevendo sobre isso e fiquei curiosa. Sempre fui amante dos hypomnemata, mesmo antes de saber o que eram. Dei uma procurada no pai dos burros modernos, el gran google, e descobri muitas coisas sobre o tema.

Nos tempos de Platão, os hypomnemata eram cadernos de anotações de uso pessoal. Não eram necessariamente íntimos. Eram comuns sobretudo nas classes cultas, como uma espécie de "anotadores" de vida, como memórias individuais. Eram usados para guardar reflexões e idéias, preparar discursos, copiar fragmentos de leituras, frases e histórias ouvidas, relatos sobre coisas vividas ou vistas, etc. Muitas vezes convertiam-se em rascunhos de textos que posteriormente seriam desenvolvidos. Também eram escrituras em andamento, um lugar que servia tanto para guardar memórias como anotações sobre coisas que se planejavam fazer no futuro. Este tipo de escrita não era movida por uma intenção reveladora, de originalidade ou inovação. Ao contrário, eram recompilações que reuniam diferentes reflexões sobre experiências diretas, estruturadas em relação ao vivido. Os hypomnemata foram importantes na Antiguidade porque contribuíram para a naturalização da escritura. Segundo Foucault, o surgimento e a proliferação dos hypomnemata poderia ser comparado à popularização dos computadores pessoais do nosso tempo. Muitos pensadores consideram que os hypomnemata, guardando-se todas as proporções e mediações históricas devidas, provocaram um fenômeno semelhante aos blogs e aos sites pessoais modernos. Li um artigo de Nicolás Nóbile chamado "Escritura electrónica y nuevas formas de subjetividad" que toca neste tema:

Era un elemento que reforzaba la relación del usuario consigo mismo, ya que mediante estas libretas se efectuaba parte de la tarea de administración y gobierno de la propia persona. (...) una recolección de fragmentos de textos ya sean propios, oídos o enseñanzas que pudieran luego ser utilizados para reforzar y mejorar una relación de pleno autodominio de sí. Esta cultura ética pre-cristiana, que se continuó hasta las doctrinas estoicas romanas, promovía una visión estética de autoconstrucción de la propia persona en los términos de una obra de arte, su puesta en práctica supuso el uso intensivo de la escritura. Tal fue el caso de los escritos del emperador Marco Aurelio, Plinio o la correspondencia entre Séneca y Lucilo cuyos intercambios epistolares fueron el vehículo de una inquietud compartida acerca de las agitaciones y las perturbaciones que les afectaron. En todos ellos, el texto jugaba no como el testimonio de una vida virtuosa, sino como un recurso operativo que mediaría en el desarrollo de una adecuada relación consigo mismos.

Muito antes de ter computador ou blog, sempre gostei de escrever e fazer anotações sobre a vida. Nunca tive diários, no sentido tradicional, preferia usar cadernos para escrever, desenhar, estudar, fazer contas, anotar o nome de uma música ou de um filme, colar um recorte de jornal, etc. Usava cadernos pautados ou adaptava blocos de desenho, daqueles que vinham com folhas de papel de seda. Também gostava de cadernetas, bloquinhos e daqueles cadernos grampeados ao meio, entre outros tipos. Nem preciso dizer que adorava papelarias. Minha paixão pelos cadernos me levou primeiro a personalizá-los, mudando as capas ou desenhando sobre elas. Depois buscava coisas diferentes nas papelarias, até que um dia tive a idéia de fazer meus próprios cadernos. Comecei a fabricá-los da maneira que mais gostava: sem pautas e com capas personalizadas. Os primeiros eram precários, mas logo fui me aperfeiçoando e fazia cadernos cada vez mais bonitos.

Nos anos 80 e parte dos 90 produzi muitos cadernos de diversos tamanhos para vender. Minha especialidade era pintar papéis coloridos que logo usava para forrar as capas dos cadernos. Eram lindos. Além de vendê-los ou presenteá-los para amigos e familiares, também os vendia em muitas papelarias bacanas do Rio, São Paulo e Vitória. Foi uma fase muito legal, mas que me exigia trabalhar muito, porque era responsável por tudo: pintava as capas, cortava as folhas para o miolo, cuidava de todos os detalhes, além de continuar estudando e trabalhando. Tive vários encadernadores que preparavam as capas, mas depois tinha que colocar todas as espirais em cada caderno.

Não sei porque deixei de fazê-los. Creio que chegou um momento que deveria optar entre seguir fazendo as coisas domesticamente ou partir para a tal pequena empresa. Não tenho vocação para os negócios e vendê-los era a parte mais chata. Aos poucos fui deixando de fazê-los. Às vezes, alguém me pedia algo especial (um álbum, uma pasta, etc.) e fazia por encomenda, mas hoje em dia nem isso. O gosto pelos cadernos continua, mas confesso que diminuiu muito por dois motivos. Primeiro porque cada vez tenho mais fobia à acumulação de papel. Mudar de país me fez valorizar o desprendimento. Não tenho espaço mental e físico para guardar coisas infinitamente. Com o que tenho de livros, cds, revistas, dvds, etc. já me basta. Por outro lado, os computadores são implacáveis. Desde 93 uso estas porcarias e cada vez escrevo menos em papel.

Agora sei que meus cadernos eram hypomnemata. Tinham este caráter de anotar coisas da vida. Hoje me acostumei a escrever olhando para uma tela. O computador me permite revisar com facilidade os textos e guardá-los de forma mais eficiente. O único porém é a mudança de sistemas operativos que volta e meia acontece, mas até isso se resolve aprendendo guardar tudo com cuidado.

Com o blog meu gosto pela escrita aumentou, embora tenha demorado a expor publicamente meus textos. Metade do que escrevo ainda fica guardada em vários arquivos do cotidiano. São textos que esperam uma oportunidade de se converter em outra coisa. Por hora são apenas hypomnemata.


* Post publicado em 31 de março de 2006 aqui; sim, o tempo voa...


25.3.10

prece



Que os deuses da boa gramática me protejam contra o excesso de diminutivos e superlativos.


24.3.10

quelo



Se o Kindle DX da Amazon já me deixava com a boca aberta, imagina o Ipad: se cair na minha mão vai ficar todo babado.


novidades

::: Vocês já devem ter notado. Estou mudando a cara do blog de mansinho, assim como quem não quer nada querendo tudo. Faltam algumas coisas que exigem paciência, afinal, não sou especialista em códigos. Cada vez que mudo o template tenho que reativar os circuitos da memória e isso leva tempo.

::: Resolvi colocar aí do lado direito uma lista dos livros que leio a cada mês. Pode parecer exibicionismo, mas precisava anotar isso em algum lugar e aproveito para compartilhar com vocês. Talvez inclua comentários sobre cada livro, mas tenho que encontrar uma forma de encaixar isso nesta coluna estreita.

::: Atualmente estou agarrada ao livro do Milton Hatoum. Queria ter tempo de terminá-lo de uma vez, mas não consigo, o dever chama e reclama. Aliás, demorei muito para começar a ler as obras deste autor. Como sempre, me dá vontade de ler tudo o que ele escreveu até agora.

::: Também gostei do reencontro com as crônicas do Ruben Braga.

::: Acho importante não perder o hábito de ler em português. Em casa temos uma biblioteca enorme, mais ou menos especializada em arte, estética, arquitetura e história. Quase tudo em espanhol, é claro. Acontece que ultimamente tenho sede de literatura brasileira.


22.3.10

rosa

Prunus e amendoeiras (almendros) começaram a dar o ar da graça semana passada.



Há flores rosas por todos os lados.



Não resisto à beleza destas árvores. Enquanto dirigia consegui fotografar algumas pelo caminho.



Aliás, o dia estava divino, com temperatura agradável e céu azul. Sente-se no ar esta energia primaveril que melhora nosso ânimo.



Dá vontade de sair por aí sem rumo, só pra ver a natureza passar.


19.3.10

amarelo





Vejo da minha janela esta mimosa florida enquanto arrumo, troco de lugar, penso e chego a óbvia conclusão de que a iminente primavera faz-me bem à alma.


soichi noguchi



Tenho acompanhando pelo Twitter a série de fotos deste astronauta japonês que registra diversas partes do planeta a bordo da estação espacial da NASA. Isso sim é uma viagem!


18.3.10

só no sapatinho [2]



O modelito gothic girl era lindo, mas não deu tempo de fotografá-lo, estou meio fora de forma.


17.3.10

futebom!



Que conste: torço pelo Real Madrid mas, de um modo geral, sou franco atiradora: meu negócio é ver gols!


à propos encore



Por falar em dança, gosto muito do Grupo Corpo não só pelas coreografias, mas também pelo bom gosto musical.

Em maio este grupo vai passar pela Espanha, mas só em Valencia, San Sebastián, Gijón, Santander, Palma de Mallorca e Bilbao. E Madrid? Nadica de ná. Vão apresentar as coreografias Parabelo (1997) e Bach (1996). A primeira já vi, é maravilhosa, a música é do Tom Zé e Zé Miguel Wisnik. Bach tem música de Marco Antônio Guimarães, do Uakti.

Só não entendo porque não trazem obras mais recentes. Porque será?

O Grupo Corpo tem uma página no Youtube com vários vídeos. Prepare a pipoca, porque vale a pena ver TODOS!


à propos [4]



Dá vontade de sair dançando pela casa! Como se fosse fácil!


pra dançar



Sugestão muito boa do Mauval (roNca roNca). Adorei o modelito da sweet Janis.


memórias de verão

*

Verão no Rio (ou em qualquer cidade praiana) sem o famoso temporal no final da tarde não tem graça.

*

Após um dia de calor intenso o tempo fecha de repente. O mundo parece que vai acabar, fica tudo "cinzo" (eita palavrinha útil!). Nem uma folha se mexe e o ar parece de chumbo: pesado, denso, carregado de umidade.

*

Estava meio desacostumada à fartura de águas das tempestades tropicais. No meu tempo (hum...), era normal faltar luz na hora do temporal. Raios e trovões na escuridão eram mais emocionantes!

*

Anoitece antes da hora. A força da chuva é um espetáculo bonito de se ver, embora em muitos bairros cause estragos e problemas. Depois que a chuva passa, a noite chega mais fresquinha e o ar fica cristalino.

*

Olhando bem para o aguaceiro, entendemos melhor o significado da palavra chuveiro.


* Lagoa Rodrigo de Freitas e adjacências (Rio, janeiro, 2010), enquanto esperávamos a chuva passar. As imagens aumentam de tamanho, basta clicar que abrem em outra janela.


15.3.10

- 100%

Meu peito andava ligeiramente aflito. Não sou 100% felicidade nem 100% alegria nem 100% energia nem 100% amor nem 100% fraternidade. Nada disso é full time. Muita gente diz que tem este dom, mas há controvérsias. Não sou 100. Transparento meu estado por onde quer que passe: sensível, estranhada, ora sumida em pensamentos e sentimentos confusos ora entregue a mais pura alegria. Não, não sou opaca e sem brilho. Por isso quebro à toa.

Na arte da dissimulação e do silêncio politicamente corretos minha atuação é sofrível, literalmente. Ocasiono tormentas e tempestades próprias e impróprias. Algumas poderiam ser evitadas, outras são desejáveis, mas só descubro isso depois que o vento me carrega ou me derruba. Não está nos meus planos acertar sempre. Sou demasiadamente humana e incompleta. Ainda por cima costumo seguir o que dita minhas vísceras viscerais para ser e estar no mundo.

A euforia da viagem, a alegria veraniega que carregou minhas baterias e me encheu de energias boas abriu meus olhos. Voltei distanciada. Foi então que descobri uma parede no que antes parecia uma porta aberta. Esta constatação me deixou triste. Sofri uma certa melancolia cinzenta, pós-carnavalesca, misturada a uma profunda descrença nos seres que se autoproclamam próximos. Busquei no fundo d´alma palavra que pudesse definir este estado. Encontrei uma palavra feia, palavra avergonhada, não fosse a intuição de que todos a carregam dentro, alguns de modo discreto, outros de forma corajosa. Esta palavra, impronunciável, rondou meus dias, deixando-me o coração apertado.

Às vezes a suspeita dói mais que a verdade dita com todas as letras. Gostaria de ser mais uma nas aparências da humanidade que me cerca. Preferia ficar quieta e invisível como todos, mas não posso, não consigo. Faço proclamações pseudoexibicionistas ou com sentido codificado. Levo tudo a serio e tenho o péssimo hábito de me oferecer às pedradas alheias. Deve ser porque pratico tiro ao alvo sem nunca acertar. Se fingisse indiferença, se me contivesse, se ficasse muda, seria mais feliz ou apenas mais covarde? Seria mais humana, menos estranhada ou apenas mais uma a calar-se?

Optei por afastar-me das situações que não entendo. Sim, dei às costas para não desistir da luta da vida e para recuperar as forças. Este é meu erro? Claro que sim. É lamentável exibir as fraquezas e dar pano para várias mangas, mas quem nunca errou que atire a primeira pedra.

O afastamento é um estágio necessário. Necessito tentar recomeçar por outro caminho até que esta sensação de peixe fora d'água também se afaste, ganhe distância. Até que seja possível outra vez sorrir desde dentro, não apenas desde fora, todas as vezes que me encontrar com a parede que antes era uma porta aberta.


Prometi não falar do amor, mas sem ele encontro somente dor... voltarei então ao tema central da vida. Independente do que aconteça, façamos com que o nosso amor seja incondicional, ele abre as portas mais fechadas e é a melhor arma que nosso coração pode ter. Pratiquemos amor em nosso dia-a-dia, os limitados poderão não entender, mas até mesmo esses, sem perceberem, estarão nos ensinando a amar! Chelin

up & down

::: Semana passada: estava naqueles dias de humor em freqüencias alternadas.

::: Vida de pesquisadora tem destas coisas: às vezes é preciso mudar o ponto de vista para olhar a mesma coisa.

::: Um lugar estranho rodeado de lugares bonitos, em pleno quadrilátero de museus da cidade. Começei a pesquisar no Arquivo de Protocolos de Madrid. Que perdição!

::: Não deixarei meu palácio, apenas preciso excavar documentos da série histórica que estou reconstruindo, passo a passo, em outra freguesia.

::: Todas as vezes que começo a frequentar outras praias me sinto meio estranha, mas passa logo porque adoro descobrir novas pessoas, novos lugares, novos caminhos.


9.3.10

azul





O dia amanheceu azul. Depois de muita chuva, o céu voltou a ver a cara do sol.


8.3.10

é pra quem pode...

No depende de la posición social, ni de la educación recibida en un colegio elitista, ni del éxito que se haya alcanzado en la vida. Tener clase es un don enigmático que la naturaleza otorga a ciertas personas sin que en ello intervenga su inteligencia, el dinero ni la edad. Se trata de una secreta seducción que emiten algunos individuos a través de su forma natural de ser y de estar, sin que puedan hacer nada por evitarlo. Este don pegado a la piel es mucho más fascinante que el propio talento.


Manuel Vicent, "Tener clase", no El País de ontem (07-03-10). Para ler toda a crônica, aperte aqui.


meu tempo

El trabajo que se mantiene impregnado de juego es arte.
Richard Sennett/John Dewey



Sou do tempo em que as famílias ainda eram grandes.
Quase todo mundo tinha muitos primos, tias e tios.

*

Sou do tempo em que havia pelo menos uma tia prendada que sabia costurar. Tive a sorte de ter várias tias prendadas. Muitas sabiam, e ainda sabem, costurar, bordar, tricotar, fazer crochet, cozinhar bem, entre muitas outras coisas maravilhosas. Que lindas tias! Minha mãe também sabe fazer muitas coisas bonitas e aprendi (e aprendo) muito com ela.

*

Sou do tempo em que domingo era dia de experimentar roupas novas na casa do meu avô ou na casa de alguma tia. Aliás, sou do tempo em que toda casa tinha uma máquina de costura. Tempo em que as meninas brincavam de fazer roupinhas de boneca.

*

Estas lembranças vêm ao caso porque a infância deixa marcas para o resto da vida. Não sei costurar tão bem como minha irmã e minhas tias, mas me viro. Já fiz até roupas para vender. Também me viro no crochet. Já fiz bolsas e faixas. Meu forte sempre foram os penduricalhos e balangandãs: adoro fazer colares, pulseiras, brincos.

Deve ser por isso que não resito a estas lojas que vendem de tudo. Lojas para quem ainda acredita no trabalho feito com as próprias mãos. Entro com a desculpa de procurar alguma coisa, mas na verdade, gosto mesmo é de admirar o paraíso das coisas. Destas coisas feitas para virar outras coisas, com a ajuda das mãos das pessoas que sabem fazer coisas bonitas.

Tudo o que é criado e executado com as mãos, de um modo artesanal, tem aura, no sentido proposto por Benjamin* e conta uma história (o próprio objeto narra seu processo de aparição no mundo).

Ainda sou deste tempo e daquele outro que ficou guardado na história de certos objetos que convivem comigo todos os dias.


* “Em suma, o que é a aura? É uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja”. (Walter Benjaim, A Obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica).

* Almacén de Pontejos, Madrid, fevereiro de 2010.


mulheres [2]



Já sei: todo dia é dia da mulher. E também do homem, da criança... Entendo este ponto de vista, mas também acho que é importante marcar um dia para festejar, celebrar e, principalmente, dar visibilidade a vários problemas que estão aí, como se o mundo não tivesse mudado nadica de nada nos últimos séculos.

Não ganhamos o mesmo que os homens e quase sempre não nos livramos da carga doméstica e familiar, só para dar dois exemplos simples. Um dia não vai resolver nada? Claro que não, não acredito em milagres, mas há que teimar, insistir, repetir. Que sirva só para lembrar e para mostrar que ainda hoje há mulheres submetidas a um tratamento vergonhoso, triste e silenciado todos os dias. É pouco, não resolve nada, mas é melhor que um ano inteiro sem tocar no assunto.

É um dia para dar protagonismo mediático aos nossos problemas e suas possíveis soluções. Um dia para contar como nós mulheres vivemos, dia sim e dia sim.


muheres [1]



Lindas e poderosas, elas e todas nós!


ele merece!




3.3.10

a poça



Voltava do meu palácio em direção a Argüelles na quinta passada. Às vezes gosto de ir andando para esticar as pernas e descobrir novas ruas. Aproveitava a trégua da chuva...



Eis que me encontro com algo totalmente raro nesta parte da cidade: uma enorme poça d´água em plena Plaza de España! Claro que fiz várias fotos.



Tem chovido tanto neste inverno que agora é normal a gente encontrar: buraco nas ruas e poças. Quem mandou reclamar da falta de chuva e do clima seco? Toma ya! Toda la lluvia pa Madrid!


2.3.10

primavera féchium



Estava a caminho do meu palacete e não resisti à muvuca aglomerativa.
O que será? O que não será?



Ao me aproximar descobri o motivo: uma pobre modelo morta de frio (e, provavelmente, de fome) trabalhava em plena manhã de um dia "cinzo", quase chuvoso.



Entre uma pose e outra, a mulher-edredom oxigenada estava sempre pronta para aquecer as pernocas e os braços gelados da modelo.






A galera não resiste a uma aglomeração. Eu também não.
Todo mundo fazia fotos, eu também.
Acho que trabalhamos muito mais que o fotógrafo propriamente dito.



Arrepare na luz dourada da escultura...



A fonte tinha um brilho mágico, como se fosse um raio do astro rei que, aliás, anda bem sumido dos madriles ultimamente.



Fiquei intrigada, "urubuservando"... Até que descobri o motivo: era um efeito especial.






Agora vejam vocês, até um guindaste foi usado para imitar a luz do sol.
Só não descobri o nome da revista. Já estava muito atrasada e, sinceramente, gostei mais do making-off... Ou seria melhor dizer making-in?


sete pecados cariocas | avareza



Avareza financeira, imobiliária, política e consumista geram desigualdes e miséria. Avareza pelos bens materiais que podem ser reciclados, reaproveitados, renascidos de uma aparente inutilidade pós-utilidade é qualidade rara e, por isso mesmo, digna de elogio e respeito!

Sejamos avaros: não vale a pena se desfazer de coisas que ainda servem para virar outra coisa.


1.3.10

anti panela aderente

Não sou contra a solidão, porque a solidão é uma forma de crescer. Participar de um grupo, por menor que seja, já é um problema, uma autocondenação. Nunca houve grandes intelectuais que fossem enturmados. O grupo estabelece regras, gentilezas e certezas... Essas gentilezas geram o acomodamento e tolhem o indivíduo — acabam lhe dando a certeza de pertencer. Milton Santos

Totalmente de acordo com o ponto de vista do mestre. Desconfio dos grupos, panelinhas & afins. Não sou uma "grande intelectual" nem tenho aspirações — sou apenas uma simples beduína com ideias confusas —, mas preciso de espaço e tempo para minha solidão produtiva (ou improdutiva). Espaço e tempo para ficar sem falar ou sorrir, para respirar e olhar, para não responder nem perguntar, para pensar, imaginar, fazer, sonhar, passear e escrever. Nunca gostei de grupos fechados, nunca consegui aderir incondicionalmente às propostas com espírito reiterativo: sinto-me incômoda com as redundâncias e o excesso de intimidade grupal. Cultivo e prezo as individualidades. Costumo ser a facilitadora de novos encontros e descobertas, alheias e próprias. Se noto que a banda toca acordes panelísticos, mudo a frequência antes que seja tarde. É bom abrir horizontes, expandir os afetos, criar novas redes, conhecer e deixar-se conhecer. Ontem, hoje e daqui pra sempre.


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